Grandes empresas estão puxando o consumo de energia limpa no mundo

Vista aérea do Googleplex, sede do Google na Califória onde está instalada uma usina solar com 1,9 MW de potência Austin McKinley/Wikimedia Commons
O lobby da energia verde ganhou aliadas de peso. Grandes empresas mundiais estão se antecipando aos governos para incentivar o uso de energias renováveis começando dentro de casa.

No início deste mês, a gigante de embalagens Tetra Pak anunciou que pretende usar 100% de energia renovável em toda sua operação mundial até 2030. Com essa meta audaciosa, a multinacional sueca se junta a um grupo de grandes corporações como Google, HP, Microsoft, Nestle, Nike, Starbucks que, no âmbito de um pacto global chamado RE100, se comprometem publicamente a aumentar a fatia de energia limpa em suas operações nos próximos anos.

O lobby das corporações mais influentes do mundo em favor das fontes renováveis somado a outras iniciativas - como a que reúne empresas brasileiras em torno do controle das emissões de gases do efeito estufa, o GHG Protocol - reforça uma tendência que está mexendo com o mercado de energia, que precisa oferecer contratos de energias renováveis em maior escala.

De acordo com estimativa do RE100, o setor privado responde hoje por cerca de metade do consumo de eletricidade do mundo. Esse apelo dá um sinal verde ao mercado de energia para investir na expansão das renováveis. Só no ano passado, foram acrescentados 152 GW de energia renovável à matriz mundial, segundo dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena), com predomínio da fonte eólica e solar.

Além de corrida do mercado para atender à demanda crescente por energia limpa, essa tendência deve resultar em um boom de autoprodução de energia por parte das empresas, segundo Mikio Kawai Jr, diretor executivo do Grupo Safira Energia. “No Brasil, temos um atraso de mais de 30 anos em relação ao mercado norte-americano, que começou fomentar a geração distribuída [para empresas e residências] em 1978 com incentivos à expansão fotovoltaica no país”, avalia.

Dentro e fora do Brasil, as empresas estão fazendo a lição de casa. Em pouco mais de dois anos de existência, as companhias membros da RE100 já conseguiram mudar metade das suas fontes para renováveis. Exemplo clássico, o Google já investiu mais de R$ 1 bilhão em projetos de energia limpa, inclusive, no próprio quintal: sua sede na Califórnia tem uma planta solar com cerca de 2 megawatts (MW) de capacidade. Outro caminho são as associações com grandes produtores de energia. O Walmart, por exemplo, é parceiro de uma usina eólica no Texas.

Com duas plantas no Brasil, um delas em Ponta Grossa, nos Campos Gerais, a Tetra Pak, já usa 100% de energia limpa aqui, proveniente das hidrelétricas. “Na América do Norte, na Europa e na Ásia ainda predominam as fontes não renováveis, derivadas do petróleo”, afirma a Valéria Michel, diretora de Meio Ambiente da Tetra Pak no Brasil. Para chegar à meta até 2030, a empresa planeja introduzir centrais de “minigeração” de energia, principalmente solar, nas mais de 40 plantas da companhia mundo afora.


Pactos públicos reúnem empresas “verdes”

Tanto lá fora quanto no Brasil, a mudança de comportamento das empresas em direção a uma economia de baixo carbono, seja pelo aumento do consumo de renováveis ou pelo controle de emissões no processo, ocorre por meio de protocolos públicos. O RE100, por exemplo, reúne 65 empresas que estabeleceram metas públicas para o uso de 100% de energia renovável.

No Brasil, a pegada é o controle de emissões. Até o momento, 133 empresas aderiram voluntariamente ao GHG Protocol, que estimula a cultura corporativa para a elaboração e publicação de inventários de emissões de gases do efeito estufa (GEE). Na lista, constam nomes como Klabin, BRF, Grupo Boticário, Natura, TIM, Positivo, entre outras. Juntas, elas somam cerca de 7% das emissões nacionais.

“O primeiro passo para conseguir reduzir emissões é saber quanto estou emitindo”, afirma George Magalhães, pesquisador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (GVCes), que coordena o GHG no Brasil. De forma geral, segundo ele, o inventário aponta gargalos que, ao serem solucionados, mexem com a eficiência das empresas e reduzem custos. Outra oportunidade, segundo ele, é em relação ao acesso a mercados que já olham mais atentamente para essas questões.

Mas não é só isso. Ao fazerem os inventários sem que haja uma exigência legal, as empresas estão se antecipando a uma possível regulamentação nacional. Hoje, quatro estados (Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro) incentivam os inventários de emissões. Em dois deles, SP e RJ, alguns setores econômicos são obrigados a fazer. “No Rio, determinadas empresas não conseguem licença para operar se não apresentarem os inventários”, destaca Magalhães.

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